Project Description

Estilista, ilustradora e artista, Helena Obersteiner decidiu juntar todas as suas habilidades e olhar estético em um só lugar. Com 24 anos, é formada em moda pela Faculdade Santa Marcelina e se dedica com exclusividade à Zhoi, marca de roupas de pegada urbana a qual ela chama de “comfortwear” e que leva sua assinatura. Estimulada pelo estilo de vida de jovens que, assim como ela, se dedicam à arte, ao trabalho e querem intervir no mundo colocando a mão na massa, Helena traz para a moda toda sua inspiração e visão de mundo através de roupas simples e confortáveis que não perdem o contato com o fashion.

A marca, criada em 2016, começou como um projeto gráfico que evoluiu até se traduzir em peças de roupa. Hoje, ela se consolida aos poucos como empresa e começa a chamar atenção de veículos tradicionais de moda, como a revista Elle. Uma mente jovem, tentando desenvolver sua empresa com ideias novas e também jovens, Helena, assim como a Transit, ainda tenta desvendar a melhor maneira de tocar sua marca e sua produção. Motivo pelo qual a escolhemos para ser nossa primeira perfilada.

Passamos uma manhã ensolarada de sexta-feira dentro do ateliê que ocupa um quarto do apartamento de Helena no Campo Belo, onde mora com os pais. É lá que ela passa a maior parte do dia desenhando e concebendo as próximas peças e coleções da marca, além de tocar as vendas e comunicação com clientes com a ajuda ocasional de seus amigos e familiares. Nossa conversa permeou por relação com o espaço urbano, dificuldades de criar e empreender e, claro, caminhos e tentativas de promover uma moda mais consciente.

1) Em poucas palavras, o que é a ZHOI?

A Zhoi é uma marca independente que tem como ponto central o conforto. Sempre penso que as roupas podem incentivar o seu movimento ou restringir. Eu acredito nessa liberdade de movimentos e que isso pode transbordar de você para o ambiente urbano e às pessoas que estão ao seu redor.

2) Como foi o processo de evolução da marca?
Teve a primeira fase que foi de experimentação com materiais e suportes, quando eu ainda comprava as camisetas já montadas. Depois que decidi que seria uma marca de fato e que essa seria minha profissão, encerrei essa fase de primeiro entendimento do material e das técnicas, e comecei a procurar entender melhor o que é ter um negócio, algo diferente de tudo que eu já havia feito. Tive que pensar em quem ia costurar e cortar minha roupa, viés, acabamento, etiqueta, fornecedor, se ia bordar ou estampar, quantas peças ia fazer, precificação, etc. Essa segunda fase foi essencial para entender a logística de tudo porque quando você começa você não tem nenhuma referência. É bem enlouquecedor. Isso é o mais difícil no começo.

“Eu acredito nessa liberdade de movimentos e que isso pode transbordar de você para o ambiente urbano e às pessoas que estão ao seu redor”

3) E você fez algum curso que te ajudou nesse começo a entender como ter seu próprio negócio?
Entrei em uma pós-graduação de fashion marketing, que me ajudou demais. Fui conseguindo ajustar toda a ideia de branding da marca e entender o que eu estava afim de fazer. Mas, assim como está no manifesto da Zhoi, eu não acho que você cria vontades ou valores, estas coisas estão dentro de você. Você só precisa identificar o que te move. As coisas já moram dentro das pessoas, então basta você pegar elas com a sua mão e falar “É isso? Então vou fazer tal coisa para que aconteça”.

4) Como foi passar esses conceitos que você definiu para o material, para a roupa?
A primeira coisa que me moveu foi a necessidade de me mexer quando eu estava trabalhando. Eu sou jovem, não tenho carro, ainda tenho que “camelar” (sic.) muito nessa vida. Então,  o que mais me motivou foi querer estar vestida de um jeito que eu gostasse, me possibilitasse essa movimentação e trouxesse minha identidade. Também tem outra questão que era sempre querer usar roupa de menino. Eu ficava pensando “por que eu sempre quero usar roupa de menino?” E era porque os meninos sempre têm mais liberdade, inclusive na vestimenta. Isso é muito sério.

5) E quanto a escolha de tecido, logo, identidade visual? Você já tinha ou teve que criar?
O que me faltava era saber como aplicar o que eu sabia em um produto que as pessoas iam querer adquirir, como gerar dinheiro com isso.  A partir do momento que decidi confeccionar minhas próprias peças, eu precisei adaptar toda a linguagem [que já tinha]. Tive que pensar em uma malha de qualidade, que tivesse uma procedência confiável. Mas sempre com uma restrição do que o mercado oferece, ou o que tá localizado no Brás e no Bom Retiro, porque eu não sou uma empresa grande que consegue comprar em grande quantidade de grandes fornecedores.

6) Qual a sua relação com seus fornecedores? Você vai atrás para conhecer, saber como é feito?
Um dos grandes problemas de você ser pequeno é tempo e conseguir arredondar todos os valores da marca. Eu tento muito, tento ao máximo e fico mal quando eu vejo que não estou conseguindo colocar todos os mínimos detalhes que eu gostaria de acordo com o que eu acredito que tem que ser feito. Um exemplo é inclusão social no casting. Eu tenho peças de todos os tamanhos porque eu acredito que todos devem poder comprar da minha marca. Só que aí entra todo um planejamento. Peças XXL custam muito mais caro e têm muito menos saída. Eu não tinha essa experiência no começo então fiz a mesma quantidade de camisetas P e XXL, agora estou com um monte de camiseta grande parada. Procedência de tecido também é uma coisa que eu tenho dificuldade de controlar. Eu ainda não sei muito bem como fazer isso, mas eu tento o máximo que eu posso conversando com pessoas que trabalham comigo, com as pessoas das próprias lojas, etc.

“Um dos grandes problemas de você ser pequeno é o tempo e conseguir arredondar todos os valores da marca.”

7) Como é a sua relação hoje com as pessoas que compram ZHOI ? Você recebe mensagens positivas, compradores frequentes, etc?
Tem! Eu fico muito feliz quando eu vejo pessoas que já compraram recomprar, é uma coisa que me surpreende. E as vezes são pessoas de outros estados, como do nordeste, e não necessariamente desse nicho restrito de São Paulo. Isso me deixa muito contente.

8) Hoje, é você quem faz todas as operações da ZHOI? Recebe pedido, embala, envia, etc?
Sim. São muitas funções centralizadas, e que não são minha especialidade. Minha mãe me ajuda bastante. Ela está 100% comigo. Meu pai também, mas é ela que pega mesmo e faz as coisas.

“Eu acho que os meninos, nessa estrutura de sociedade que vivemos, são sempre mais incentivados a agir, inclusive a partir das roupas. Por isso, eu busco, com a ZHOI, criar, pelo menos no mundo da roupa onde eu posso atuar, um mesmo patamar para todos, que tenham o mesmo começo e na mesma linha de partida.”

9) O quê e quem você tem como referência no momento de criar suas roupas e ter ideias para a ZHOI?
Eu acho que as minhas principais referências quando eu vou criar é o pessoal das feiras de publicação independente que desde o começo me inspiram demais quanto a pesquisa de cor, desenho e imagem. Muito mais do que [alguém de] moda, é essa galera. Fora isso, tem algumas marcas que me interessam, mas, principalmente, as marcas de esporte. Quando eu ainda não tinha as roupas da ZHOI para usar eu recorria a elas para usar no dia a dia, para estar apta ao meu trabalho.

10) A ZHOI mudou a maneira que você consome moda?

Totalmente. Eu parei de comprar roupa e isso é muito bom, é algo que me deixa muito feliz. E também porque eu testo né? Eu testo o que eu uso para ver se está gostoso, se eu estou feliz com a roupa assim. Acho que é um bom termômetro.

11) Para você, o que é pensar e criar de maneira colaborativa?
Acho que é você aceitar as ideias dos outros. Tem muita gente egóica com essa coisa de criação. Quanto mais eu trabalho, mais eu percebo isso: tem funções que eu não domino, que eu não sou a melhor. Eu preciso da ajuda dos outros, eu quero a ajuda dos outros. Eu quero ser permeável para receber essas novas ideias também. É muito rico. A gente não faz nada direito sozinho, de verdade.

12) O que você acha que precisa mudar agora na cadeia produtiva de moda?
Acho que esse movimento que já está rolando de consumir do produtor local, começar a verificar a procedência das peças que compra e entender que, às vezes, você gastar um pouco mais em uma peça que tem essas qualidade e uma durabilidade boa é mais proveitoso do que comprar várias roupas que você não sabe de nada e vão estragar logo. Parar de alimentar essa indústria que produz peças ruins por pessoas que não estão em boas condições de trabalho e, por isso, ficam baratas. Tem outra coisa que precisa ser levada em consideração também, que é a quantidade de peças produzidas. As vezes uma marca grande tem preços menores do que as independentes porque consegue produzir muito, o que barateia o custo.

13) Qual a sua dica para consumir de uma maneira mais consciente?
Revisitar sempre o que você já tem. Pensar em novas maneiras de vestir, um novo styling que você pode fazer. Trocar roupa com amigos, comprar de brechós e procurar roupas de maior qualidade.

14) Como você vê o futuro da ZHOI?
Vendendo MUITO (risadas). Eu não sei se a Zhoi vai ficar muito grande, não sei se ela foi feita para ficar muito grande. Eu nem espero na verdade, acho que não tem a ver com as ideias e os valores dela, ela é mais uma marca de nicho. Mas eu espero, em breve, ter um atelier só para a marca, quero ter funcionários contratados, e acho super importante ter um ponto fixo em algum lugar em algum momento, então quero muito que isso aconteça.

Assista aos melhores momentos da entrevista: