Project Description

“Todo mundo tem um momento de clique”, comenta Marina de Luca, diretora de comunicação voluntária do Fashion Revolution, sobre a vontade de produzir de forma mais consciente. Assim como Marina, formada em moda na Faculdade Santa Marcelina em 2007, o sentimento de que algo está errado no mundo da moda tem crescido entre os profissionais que acabam, de uma maneira ou outra, conhecendo dados que expõem a grande quantidade de lixo gerado pelo mercado e a mão de obra largamente explorada para que peças de roupas sejam feitas. Só no Brasil, são produzidas 6,7 milhões de peças novas por ano, que são distribuídas entre a venda física, online e exportação para outros produtos (o Brasil é o quinto maior produtor têxtil do mundo, segundo a Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção-ABIT).

Os números impressionam: o setor têxtil é o segundo mercado mais poluente do mundo, ficando atrás apenas da indústria petroleira, realidade causada pela quantidade altíssima de peças novas de roupa produzidas e igualmente descartadas todos os anos. Uma indústria que movimenta 50 bilhões de reais anualmente e emprega diretamente 1,5 milhão pessoas dentro do país é, sem dúvida, uma engrenagem importante da economia. Partindo desse princípio, não é difícil imaginar porquê ela vem sendo mantida em todo o seu potencial exploratório e rentável pelas grandes corporações. No entanto, o mercado de vestuário tem estado cada vez mais nos holofotes da mídia como protagonista de escândalos ambientais e, principalmente, relacionados ao trabalho marginal e análogo à escravidão.

O grande estopim aconteceu em 2013, quando o edifício Rana Plaza em Dhaka, Bangladesh, colapsou por conta de sua estrutura frágil e defasada. Apesar do prédio apresentar rachaduras graves em sua estrutura, os funcionários das quatro fábricas que funcionavam no local continuaram a trabalhar, assegurados de que o ambiente era estável. O acidente foi responsável pela morte de 1.127 pessoas, a maioria composta por mulheres e seus filhos, além de 2.500 feridos. Marcas ocidentais conhecidas mundialmente, como Bennetton e Primark, estavam entre as que produziam parte de sua confecção no Rana Plaza, mas a produção de roupas em áreas periféricas da Ásia são fato corriqueiro da indústria. Por isso mesmo, o evento de 2013 foi uma faísca, o “clique” como diz Marina, que fez com que muitos profissionais da área não conseguissem mais ficar calados diante da exploração injusta de mão de obra presente na cadeia de moda. “Uma vez que você enxerga isso, não dá mais para fingir que não se importa ou que não está vendo”, desabafa.

Dentre as manifestações que surgiram em prol de uma relação trabalhista e ambiental mais justa, está o Fashion Revolution. O movimento, que uniu um conselho global de líderes da indústria de moda sustentável, acadêmicos, imprensa e ativistas, foi criado no Reino Unido pelas designers especializadas em moda sustentável Carry Somers e Orsola de Castro e coloca em pauta a urgência de uma alternativa para a lógica do fast-fashion, passando pela conscientização sobre os processos de fabricação e impactos socioambientais dessa cadeia produtiva. Hoje, ele já atua em 92 países, incluindo o Brasil.

Fomentar um questionamento maior sobre como funciona a cadeia implica em destrinchar o processo produtivo e lembrar para o consumidor final de que para a roupa chegar até ele existe um longo processo que vai desde o agricultor, passando pela colheita da matéria prima, pelo processo técnico de fabricação do tecido e pelos costureiros, ou seja, por pessoas, e que para você comprar uma roupa por um preço muito baixo, alguém está pagando um preço muito alto para isso com sua força de trabalho e, com certeza não é o grande empresário. “O uso de imagens ajuda bastante nesse processo, creio que seja o que atinge as pessoas mais diretamente”, comenta Marina ao lembrar sobre o documentário The True Cost, financiado pelo Fashion Revolution. Confira o trailer:

Em âmbito nacional, o movimento foi encabeçado pela consultora de moda sustentável e ativista Fernanda Simon. Desde então, foram realizadas palestras, workshops e até instalações em parceria com o governo como o Fashion Experience. Foram feitas também parcerias com ONG’s como o Greenpeace a fim de expandir o debate e fazer esses questionamentos chegarem em mais e mais gente. “Estamos num estágio de conseguir crescer e encontrar a melhor maneira de fazer a conta fechar sem que tenhamos que tirar dinheiro do bolso”, diz Marina ao explicar que, no Brasil, a participação dos colaboradores ainda é 100% voluntária.

Anualmente, no dia 24 de abril, há uma ação mundial com a pergunta #whomademyclothes. Intitulada como Fashion Revolution Day, a data foi instituída em referência ao desabamento no Rana Plaza e busca aumentar o engajamento sobre o verdadeiro custo e impacto da cadeia. A ideia dessa revolução da moda é monitorar as marcas levantando a simples questão”quem fez as minhas roupas?” pressionando com a postagens de fotos e hashtags online e promovendo também palestras e discussões sobre o tema. Os consumidores fotografam as etiquetas de suas roupas com o nome da marca e fazem a pergunta, que pode ou não ser respondida pelas empresas, mas levanta a dúvida independentemente. O objetivo é garantir transparência fazendo com que, a cada ano, mais marcas deem mais informações e abram para o público dados sobre como, onde e, principalmente, quem fabricou a roupa que você compra.

A Transit já estava presente no evento de 2016 do Fashion Revolution e pode ver de perto como, de fato, houve um crescimento tanto de público quanto de alcance da causa. Para começar, no ano passado, não havia uma semana inteira de debates e palestras, mas sim um único dia de discussões. “Essa foi uma decisão que veio direto de Londres, em ampliar o evento. Foi um grande desafio articular isso tudo com uma equipe de voluntários”, comenta Marina (foto).

Enquanto em 2016 a palestra principal  aconteceu numa pequena sala da Escola São Paulo abarrotada com pouco mais de 150 pessoas, principalmente estudantes de moda, esse ano o evento ocupou dois pavimentos da Unibes Cultural, enchendo o auditório do local nas palestras e oferecendo oficinas de tricot de braço, crochê, upcycling, costura mirim e até um bazar troca de roupas pelo Trocaria (foto). Além disso, diferente dos debates concentrados em um dia da edição anterior, este ano ocorreram outras rodas de conversa durante a semana do dia 24, espalhadas pela capital que levaram o debate para outros locais.

Outro ponto importante foi a mudança de postura e posicionamento do movimento. Em 2016 falou-se muito dos problemas, do que estava errado na cadeia produtiva e o que era preciso mudar. Agora, o foco estava mais em marcas, iniciativas,  pessoas que buscam fazer diferente e maneiras práticas de fazer isto acontecer. “Falamos dos problemas ano passado, mas agora queremos falar das soluções” foi como a Presidente do movimento, Fernanda Simon, abriu a primeira mesa de debate  da semana, intitulada Money Fashion Power. Economia, inclusive, foi o tema que abriu e fechou o evento e esteve presente na representação de modelos de negócio possíveis e empresários atuantes no mercado que levam em consideração os conceitos sustentáveis como menor impacto, reutilização de recursos e capitalismo consciente. Entre empresários, equipe de marketing, designers e gestores de empresa, uma das grandes colocações defendidas foi a de que é possível sim trabalhar dentro do mercado sem deixar de ser consciente.

O deputado Carlos bezerra Júnior (PSDB) expôs como a escravidão contemporânea se modernizou e ainda é muito comum no Brasil. “Trata-se de uma privação de liberdade,  através de uma servidão por dívidas, por exemplo, e privação de dignidade trabalhando até a exaustão”, esclarece. Ele também acredita que o que mobiliza as pessoas a favor da escravidão é o lucro a qualquer custo. Autor da lei nº 14.946, que garante a cassação por 10 anos de “qualquer empresa que faça uso direto ou indireto de trabalho escravo ou em condições análogas”, a iniciativa foi tida como modelo pela Organização das Nações Unidas (ONU). A intenção é que a partir disso, aconteça um processo de regularização de empresas escravistas, mas muitos entraves acontecem na hora da fiscalização. “Não sou otimista em relação ao capitalismo, o trabalho escravo não é a doença, mas sim um sintoma de um sistema preconceituoso, concentrador e que devasta o meio ambiente”

O empresário Thomas Eckschmidt, representante do Instituto Capitalismo Consciente Brasil, apontou uma outra perspectiva ao dizer que uma empresa precisa ter lucro para existir, mas não existe para ter lucro e que o acesso à informação é o grande fio condutor da mudança. “O capitalismo é fundamentalmente ético. Ninguém é obrigado a comprar de ou vender a alguém. Mas quando a consciência não funciona, entra a regulamentação”, adiciona.

Na área de casos bem sucedidos, destacamos duas iniciativas das designers Flávia Aranha e Fernanda Yamamoto, que também estiveram presentes no evento do Fashion Revolution. Na palestra ”Design Para Sustentabilidade”, Flávia dividiu como tenta criar uma produção com materiais e mão de obra local, a fim de criar uma relação mais justa e horizontal na cadeia. Sua maior dificuldade está em expandir o negócio deixando-o mais acessível e atingindo outros nichos para que as próprias artesãs possam ter acesso às roupas que fabricam. Já Fernanda mostrou seu trabalho de desenvolver uma coleção de renda renascença feita 100% artesanalmente feita pelas rendeiras do Cariri, na Paraíba. O intuito é valorizar o trabalho manual ao colocar nas próprias etiquetas do produto o nome da rendeira e quantas horas ela levou para que aquela peça fosse feita. Em média são 150 horas. (Abaixo, um  documentário contando a história do projeto).

Em se tratando de cobertura, esse foi o ano de maior repercussão no Brasil. Nas redes sociais, a #FashionRevolution foi mencionada mais de 25 mil vezes no mundo todo. A principal estratégia de comunicação do movimento é focar no lado educacional: conectando as pessoas e suas histórias e deixando claro o lado humano que tem em cada produto e peça de roupa a ser usado. “Queremos incentivar a transparência das marcas e enaltecer o trabalho das pessoas”, completa Marina de Luca.

Em entrevista ao portal G1, a doutoranda do curso de design da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), professora de moda da Unisinos e representante local do movimento, Cariane Weydmann Camargo, disse que ficou surpresa com o crescimento do alcance do movimento no Brasil e complementa a fala afirmando que “nós somos responsáveis pelo que consumimos, porque de certa forma a gente contribui para uma cadeia produtiva se manter, seja qual ela for”. Sendo assim, cada compra (ou não compra) representa um ato político.