Project Description

Multitarefas, Marina de Luca é a pessoa certa para falar sobre sustentabilidade na moda por diversos motivos. Formada em moda pela Faculdade Santa Marcelina, passou por diferentes nichos do mercado tradicional de moda e viu que não era bem aquilo que queria fazer. Hoje, ela é responsável pela comunicação do movimento Fashion Revolution, em São Paulo, e participa da organização dos diversos eventos, painéis e ações da equipe brasileira.

Além disso, ela encabeça sua própria empresa, a plataforma colaborativa chamada Moda Limpa. Iniciado como uma espécie de agenda de contatos da moda sustentável feita em uma tabela do Google docs, o Moda Limpa se desenvolveu – e continua se desenvolvendo – em uma plataforma funcional, com diversos cadastrados e rumo ao sustento financeiro. A ideia é trocar fornecedores, parceiros, dicas de empresas e marcas de moda sustentável para ajudar desde o consumidor até o dono de confecção. Uma troca de “boas práticas”, como Marina gosta de chamar.

Aproveitamos seu espírito comunicador (ela diz ter o mapa astral inteiro voltado para a comunicação) em uma conversa no ateliê de seu pai, na Vila Madalena, onde ela ministra aulas do Curso de Moda da Marina, uma introdução ao mercado da moda como ele é hoje e suas mudanças. Falamos sobre a plataforma, o movimento, o mercado como um todo e comunicação, em um papo de quase duas horas que rendeu reflexões e aprendizado e boas risadas, difícil de editar para essa matéria sem deixar nada de fora. Confira:

De onde veio a ideia do Moda Limpa? Por que você começou o projeto? 

[No trabalho] Conheci muitos fornecedores, desde tecido e estamparia até o produto final. Em 2015, comecei a ter esse estalo para o lado da sustentabilidade e, quando saí da C&A, todos os meus projetos já estavam voltados para essa área. Comecei a reparar que eu tinha vários contatos de fornecedores que as pessoas não tinham e coloquei tudo numa planilha aberta do Google Docs depois postei no Facebook. No começo tinham 10 contatos, basicamente só com fornecedores de tecido. Logo a lista já cresceu para 30.

No que os próprios usuários ajudaram? 

Foi muito legal que, principalmente as pequenas marcas que têm foco em sustentabilidade, abraçaram muito a ideia e compartilharam os fornecedores delas. E não só isso, como indicaram a plataforma para que marcas amigas cadastrassem os seus.

Como você tem certeza que aquele fornecedor é confiável? 

Você não tem. É por avaliação do usuário, como no Uber. Não queremos a responsabilidade de dizer que nós decidimos se o fornecedor é ou não sustentável. Principalmente porque, em relação a impactos ambientais, ainda não existe uma lista que diz o que pode ser classificado como sustentável ou não. Então, nesse sentido de aprovar ou não se uma empresa é sustentável, decidimos fazer também de forma colaborativa junto com os usuários. Você pode dar sua opinião sobre um fornecedor, e você pode conversar com quem o indicou.

 

“Comecei a reparar que eu tinha vários contatos de fornecedores que as pessoas não tinham e coloquei tudo numa planilha aberta do Google”

 

Você já teve que alguma vez tirar fornecedor, ou teve reclamação de algum tipo? 

Nunca tive que excluir ninguém. Você entra, se cadastra, e eu só aprovo ou não. Teve só uma vez que um [pedido de cadastro] não tinha absolutamente nada falando de sustentabilidade. Mandei um e-mail perguntando e ninguém nunca me respondeu. Mas acontece muito de pedir para mandarem mais informações, até para que tenha uma troca entre os perfis dentro da plataforma.

Hoje em dia, o Moda Limpa ainda é focado em produção? 

Não, logo a gente percebeu que o consumidor final quer muito saber onde ele pode comprar e abriu. E, quando você tem um site, a quantidade de acessos e cliques conta muito. Quando nós fizemos só para produtores atingia o recorte do recorte do mercado. Abrindo para marcas e para o consumidor, atingimos qualquer pessoa.

Como que o site ganha dinheiro, ou ainda não ganha? Quais os planos de você para conseguir monetizar? 

Ainda não ganha, mas a ideia é essa. Temos alguns planos para transformar ele em um negócio e as coisas estão caminhando. A ideia é que a gente consiga fazer isso ainda esse ano.

Hoje, você cuida da comunicação dentro do Moda Limpa e no Fashion Revolution. Você já trabalhava com isso ou caiu um pouco de paraquedas? 

Eu prestei vestibular para ser jornalista, não passei e fui fazer moda. Acho curioso que, quando eu estava na faculdade, eu dizia que nunca ia ser jornalista de moda porque achava que não tinha conteúdo. Mas, quando eu tive o estalo para a sustentabilidade eu vi que tinha muito conteúdo para falar de moda e que, até então, moda era fútil para mim, apesar de eu não querer acreditar porque eu trabalhava com essa moda fútil.

Quando foi o seu estalo? Não sei se teve só um, talvez o acúmulo de vários… 

Não foi só um, mas acho que quando eu fui trabalhar no e-commerce. Eu era estilista e estava acostumada a fazer produto. Mas, quando saiu a parte lúdica de criação e ficou só a parte da venda, eu pensei “Então, no fim, o meu trabalho é esse. Forçar uma venda absurda sem necessidade. Qual o sentido? ”. Eu gastava mais ou menos 10 ou 12 horas do meu dia, da minha energia, para vender mais roupa para pessoas que já tinham muita roupa. E daí o buraco vai ficando maior porque você descobre mais coisas, basta abrir a cabeça um pouquinho. O poço é bem fundo.

Você concorda que pessoas no meio sustentável se ajudam mais? 

As pessoas se ajudam, mas ainda existe muita competição. Só que isso é uma mudança no jeito de pensar e de ver a vida. Aprendemos isso desde pequenos, é cultural. Mudanças culturais demoram muito mais tempo para acontecer do que mudanças econômicas ou de padrão. Eu acho que várias pessoas já mudaram, mas a competição ainda é muito acirrada.

Como você acha que deveria ser? 

Não precisamos ter raiva e competir, a gente tem que se unir. Se eu tenho uma marca de camisetas sustentáveis e entrar outra marca de camisetas sustentáveis, ela não vai ser minha competidora porque existem milhões de outras marcas que não são sustentáveis. Se a gente não olhar essa marca como um competidor e sim como parceira, fica mais forte. Tem chance de aparecer mais, de conquistar mais espaço. Mas ainda está em processo. Tem muita gente que faz o discurso e na hora de fazer não consegue. Mas não acho que a gente tem que apontar o dedo, acho que a gente tem que incentivar.

 

“Eu gastava mais ou menos 10 ou 12 horas do meu dia, da minha energia, para vender mais roupa para pessoas que já tinham muita roupa.”

 

Como você enxerga essas inciativas de empresas grandes relacionadas à sustentabilidade? 

Acho que tem muito marketing verde e tem muita mudança real. As marcas estarem falando sobre isso ajuda a popularizar o assunto, não dá para negar. Mas, por outro lado, se elas têm a oportunidade de fazer mais, por que elas estão fazendo tão pouco? Se existe malha de algodão orgânico, por que fazer só uma camiseta e não a produção inteira? Têm muitas empresas que fazem coleção cápsula sustentável, mas a empresa em si não tem nada dessa pegada. Enquanto essa discussão for rasa a coleção cápsula funciona. Quando a discussão não for mais rasa, essa coleção cápsula é só para tapar o sol com a peneira.

Eu gosto muito de pensar no desenvolvimento da moda seguindo o desenvolvimento da gastronomia. Há 10 anos atrás a gente não falava sobre agrotóxicos e comida orgânica. Hoje, você acha em todos os supermercados. Ainda tem diferença de preço, mas uma ou outra coisa já tem preço igual. Eu acho que a moda vai seguir o mesmo caminho. Se hoje você não faz sua camiseta de algodão orgânico porque ela é mais cara, quanto mais pessoas fizerem, mais parecido vai ficar o preço e mais fácil vai ser mudar sua produção.

Você falou do mercado da gastronomia e da moda. Eu sinto que o assunto da sustentabilidade está mais presente especificamente nesses dois mercados. Você acha que tem alguma característica neles que faz a ficha cair mais rápido, ou algo que é mais impactante? 

Eu acho que os números da moda são bem impressionantes, e da comida mais ainda. O quanto a gente gasta de água, gás carbônico, e outros recursos do planeta. A moda é a segunda indústria mais poluente do mundo, acho que é por isso que estamos falando dela.

No Fashion Revolution, vocês começam primeiro questionando as marcas sobre quem fez as roupas, certo? Eu queria saber qual é o próximo passo depois desse primeiro questionamento

O objetivo é ser educacional e enaltecer as pessoas que estão por trás da nossa roupa. Aumentar a transparência na cadeia da moda e ajudar a conscientização das pessoas sobre o impacto. Para isso, tem muitas ideias de formatos, eventos, ativismos, materiais… muitas ideias. Mas, pouco tempo e pouco braço.

Qual foi a evolução do FR, mais especificamente do ano passado para cá, aqui no Brasil? 

Acho que uma diferença bem grande é que a equipe cresceu bastante. Quando você aumenta a quantidade de pessoas você consegue evoluir, e a ideia é ir aumentando cada vez mais. Mas, não é muito fácil conseguir pessoas para serem voluntárias. Dá trabalho, e você precisa fazer coisas todos os dias, ter disponibilidade, etc. Ainda é muito difícil trabalhar sem ganhar dinheiro. O que você ganha trabalhando no FR é tão bom quanto dinheiro, mas é em outro formato.

 

“Acho que tem muito marketing verde e tem muita mudança real.”

 

Vocês têm alguma estratégia de comunicação fixa no FR? 

A comunicação visual vem de Londres e também tem um guia do movimento que fala quais os objetivos. Seguindo essas duas bases nós fomos construindo a linha de comunicação daqui, do nosso jeito. Até ano passado não tinha só uma pessoa que fazia comunicação, agora estamos montando uma equipe. Vamos fazendo e aprendendo.

Quais são alguns dos planos de vocês para o futuro? 

A gente gostaria muito, por exemplo, de fazer um índice de transparência só com marcas brasileiras; ter mais acesso às escolas, fazer esse trabalho de conscientização dentro delas; e queremos que o canal do Youtube seja um viralizador das nossas ações para atingir quem não vai nos eventos. Tem vários caminhos que estão sendo traçados. A gente está se esforçando pra caramba para fazer mais, aumentar a equipe, criar setores, ter mais pessoas fazendo cada coisa, e ao mesmo tempo ter controle de tudo.

Você foi mediadora de uma palestra sobre consumo consciente na semana de moda de São Paulo. Você acha que chegar em eventos desse porte traz bastante visibilidade para o tema? 

Com certeza. Eu acho que cada vez mais tem iniciativas, pessoas e empresas falando disso. Daqui a pouco não tem mais como você falar que é contra. O pessoal da TNT Energy Drink tem falado muito sobre como ocupar a cidade e fazer coisas que realmente mude a vida das pessoas, é um projeto da empresa, e eles são patrocinadores do SPFW. Então, se eles quer falar disso, o SPFW não pode negar. O mundo vai ser cada vez mais transparente e a internet ajuda muito a gente a descobrir tudo o que acontece. Não dá mais para você fazer coisas escondidas.