Project Description

Texto: Isadora Stelmach e Marina Quaresma

Fotos: reprodução

Colagem: Laís Franklin 

Normalmente, quando fala-se de sustentabilidade, o foco está na redução de impactos ambientais e sociais negativos. Mas, assim que apresentadas as críticas ao sistema que causa tais impactos, a questão econômica da coisa vem à tona, expondo a dificuldade de ser consciente, manter um negócio rentável e lucrativo, continuar gerando empregos e produzindo normalmente.

Afinal, o lucro e o desenvolvimento sustentável podem ou não caminhar juntos? Tratando-se de moda, baseada na estrutura complexa da indústria têxtil mundial, mais do que uma resposta definitiva, esse papo dá vazão para pensar um pouco nos caminhos que ela pode seguir.

Pensar em lucratividade pode ter diversas conotações. Por um olhar mais ortodoxo, o lucro é resultado do balanço entre o que é investido e o que é ganho. Quando o último for maior que o primeiro, usa-se o termo “superávit”, resultado desejável que torna uma empresa financeiramente interessante e bem sucedida. No entanto, tem se popularizado o conceito de desenvolvimento sustentável, que expande o significado de lucro e o considera algo que pode e deve ir além do ganho pessoal de sócios e acionistas.

No Fashion Revolution Week deste ano, evento de conscientização sobre o impacto da indústria da moda organizado pelo movimento Fashion Revolution, duas de seis mesas de debate foram focadas na questão econômica. O objetivo era discutir o equilíbrio entre os fatores sociais, ambientais e econômicos. A administradora por formação, criadora da platforma Cinese e mestre em meio ambiente e desenvolvimento sustentável , Camila Haddad, comentou sobre esse novo conceito de lucro. Segundo ela, um negócio sempre precisará ter um resultado financeiro positivo mas, teoricamente, o lucro monetário é só um dos possíveis resultados do uso de um recurso para o bem estar social. “O que você quer dizer quando fala de eficiência? Normalmente fala-se de [gastar menos e/ou ganhar mais] dinheiro, mas pode-se encarar a eficiência como algo que traz bem estar social sem muito impacto negativo”.

 

“o lucro não é um crime, o problema é como ele vai ser gerado”

 

Esses impactos negativos aos quais Camila se referiu, hoje, são causados justamente pela busca por uma margem de lucro cada vez maior. Procurar pelo sucesso financeiro imediato acaba repercutindo em práticas pouco éticas por conta da indústria que quer gastar cada vez menos dinheiro em seu processo de produção. Isso força o restante da cadeia a baratear custos através da exploração de mão de obra periférica e quase escrava, gasto desenfreado de recursos (na maioria das vezes negligentes com sua origem), descarte inapropriado e menos custoso de resíduos, entre outros.

Ainda na mesa de debate do evento, Jonas Lessa, sócio da empresa Retalhar, afirmou que “o lucro não é um crime, o problema é como ele vai ser gerado”. Segundo ele, esse planejamento e esforço pelo retorno financeiro a curto prazo, desconsidera as possíveis consequências à sociedade e meio ambiente e, às vezes, até mesmo na imagem da empresa.

Atualmente, muitos grupos empresariais e corporações ainda se movimentam em direção à sustentabilidade apenas por estarem preocupadas com sua reputação diante de consumidores mais exigentes e críticos. No entanto, apesar de ser uma preocupação superficial, o economista italiano Enrico Cietta, autor do livro “A Economia da Moda” (2017- editora Estação das letras e Cores), diz que a publicidade negativa pode ser um bom ponto de pressão, já incentiva empresas a evitar escândalos públicos, como o caso da gigante do varejo Zara, em 2012, acusada de usar trabalho escravo. Exposições assim, segundo ele, podem ter um preço “alto demais”.

Cietta também menciona que a impossibilidade de lucrar no futuro é uma ameaça real a marcas que ainda não começaram a se posicionar de maneira consciente.“Por muito tempo, vendemos às empresas a ilusão de que se tornando sustentáveis elas iriam valorizar seus produtos e vender mais. Mas isso não está acontecendo e, na minha opinião, não vai acontecer. Nós deveríamos dizer às empresas que devem apostar na sustentabilidade porque vai chegar um certo ponto em que não vão vender mais nada. Não é uma forma de se diferenciar, mas um pré-requisito.”

Entre vender ou não vender, e ser sustentável ou não, a moda se torna um ponto importante da discussão. Isso porque é um mercado complexo pautado tanto no ideário estético que os consumidores estão interessados em adquirir, como na larga exploração de recursos que, inevitavelmente, traz grandes impactos ao meio ambiente e à sociedade. O produto fashion é aquele que Cietta descreve como “híbrido”: “Não é somente um produto criativo, é também um produto manufatureiro. Tem a parte de criação, que é imaterial, mas também a parte material”, ele descreve. Outro exemplo de mercado de produtos híbridos é a gastronomia, que engloba o prazer de experimentar sabores agradáveis mas, também, todo o universo agropecuário e de gasto de recursos (como a água e a terra) e a exploração de mão de obra em larga escala.

 

Mas, afinal, o lucro e o desenvolvimento sustentável podem ou não caminhar juntos?

 

Atualmente, consumimos produtos criativos (inclua aqui literatura, música e informação) com muito mais intensidade, permitidos pela maior interconexão de países e aumento dos canais de comunicação. Com isso, o consumo de produtos híbridos também aumentou, o que, na moda, levou ao boom do fast-fashion. “Existe uma regra muito clara de que quanto mais interconectado está o mundo, mais curta se torna uma tendência de moda”, argumenta Cietta, concluindo que, em vez de consumir só o conteúdo de maneira mais rápida, o fast-fashion permitiu às pessoas ter em formato físico aquilo que elas já consumiam em informação.

O see-now-buy-now marcou uma mudança de postura da SPFW, em 2016. Foi a primeira semana de moda a adotar esse modelo.

Um bom exemplo disso é a mudança do calendário das semanas de moda e o modelo see-now buy-now, que consiste em ter as peças do desfile disponíveis para venda segundos depois delas terem sido estreadas nas passarelas, o que, tradicionalmente, só era possível meses depois. Tal mudança ocorreu devido às marcas de luxo perderem espaço no mercado para marcas populares de produção mais ágil, que copiavam seus modelos de roupa e supriam a demanda exigente dos consumidores que queriam comprar rapidamente aquilo que viam em desfiles.

Na era da dialética produtiva, temos ainda grandes grupos produzindo de maneira voraz para atender ao mercado. Em todo o mundo, a relação entre o consumo de moda está diretamente atrelado à imagem e a satisfação do desejo imediato do ter.“Foi o consumo mais rápido que incentivou o fast-fashion e não o fast-fashion que incentivou o consumo mais rápido”, completa o economista. Redes como Zara e Forever 21 se apresentam como as principais atendentes dessa demanda do mercado atual.

Ainda assim, se o aumento do consumo criativo fomenta o fast-fashion, a cultura da informação também ajuda a modificar lentamente o que se pensa sobre ele. No desenvolvimento sustentável, a relação com o dinheiro, ainda que protagonista, se apresenta apenas como mais um dos fatores que compõem o arranjo de ganho empresarial, e entrar em contato com este conceito isso dá margem para repensar todo o processo produtivo e as suas correlações com o trabalho e o meio-ambiente.

 

“Nós deveríamos dizer às empresas que devem apostar na sustentabilidade porque vai chegar um certo ponto em que não vão vender mais nada”

 

Também presente na mesa de debate do Fashion Revolution, o convidado Thomas Eckshmidt, empresário ex-produtor rural e Diretor-Geral do Instituto Capitalismo Consciente, falou sobre as mudanças necessárias na filosofia de gestão empresarial para incorporar valores sustentáveis a ela. Segundo ele, as empresas “precisam ter lucro para existir, mas elas não existem para ter lucro”. Mudar essa lógica envolve alguns pilares base de uma empresa, como pensar em ter um propósito de impacto positivo para a sociedade, uma liderança mais aberta e compartilhada, e a associação com acionistas que têm alinhamento de causa semelhantes às do gestor e podem trocar outros valores além do financeiro. Além disso, Eckshmidt também considera que mudanças na cultura de consumo são necessárias para que esse avanço ocorra.

O empreendedorismo sustentável que se espalhou por diversos ramos da economia vem aos poucos “ensinando” formas mais conscientes de consumir. Essas empresas repensam a sua produção e buscam, não apenas do fomento do lucro, mas da sustentabilidade a longo prazo da sua estrutura. A procura por maneiras menos danosas de produzir e vender são vastos e , embora o desenvolvimento equilibrado dessas marcas não sejam exatamente iguais, o que as tornam muito semelhantes é a nova relação estabelecida com a moeda.

Direto da fábrica: detalhe do corte da sola de sapato da marca VERT. (Foto: divulgação)

Usar o dinheiro para proteger sua cadeia de produção, por exemplo, é um meio de torná-la consciente. É o que faz a empresa franco-brasileira de tênis sustentáveis Vert. A marca paga 30% acima do valor do mercado para ter a borracha extraída da Amazônia que é usada nas solas dos calçados e não contribui para o consumo da borracha proveniente do petróleo. Assim, protege-se as famílias para que trabalhem com segurança e assegura que a marca terá a matéria prima que precisa.

 

“O mainstream está começando a perceber as mudanças que precisam ser feitas. Seja por pressão do governo, do consumidor ou do mercado”

 

A questão da matéria prima também é importante para entender a relação entre produção, lucro e empresa. Criar um produto normalmente implica em querer ter recursos específicos para aquele modelo e fazer o que for preciso para obtê-los, mas essa pode não ser a saída mais eficiente. O ecodesign, entre outras coisas, quebra com a ideia de ter uma matéria prima a qualquer custo, e incentiva a criação a partir do que está disponível na natureza. Enrico Cietta colocou o ecodesign como um dos primeiros passos para inserir a sustentabilidade na cadeia produtiva: “Uma boa forma de se tornar sustentável é começar pensando em um design que já seja ecofriendly, e a produção de matéria prima consciente”.

Palestra do Sistema B, durante a Fashion Revolution Week 2017. O evento aconteceu no Unibes Cultural, em São Paulo.

É justamente a partir da ideia de ressignificar o que é sucesso e lucro dentro de uma empresa que surgiram fundações integrantes do chamado “movimento B”, como a BCorp (nos Estados Unidos e Canadá) e Sistema B (no Brasil e restante da américa latina). A ideia é evitar que o modelo de produção e objetivos de crescimento constante – inconsequentes e a qualquer  custo – possam levar a um colapso irreversível do mercado.

Por meio de um sistema de certificação, o Sistema B oferece uma garantia para o mercado de que as empresas com seu selo têm uma preocupação com o gerenciamento consciente e os impactos produzidos por ela. O selo é garantido através de métricas que incluem regras nas condições de trabalho, impacto em comunidades próximas e no meio ambiente, relação com clientes, política de administração, entre outros. Um dos exemplos, é delimitar a diferença entre o maior e o menor salário dentro da empresa.

Apesar de algo novo, o Sistema B já tem chamado a atenção de grandes empresas como a Natura, que se certificou e é a maior empresa da América Latina a possuir o selo. O interesse estaria em criar uma rede de empresas que seguem os mesmos padrões éticos e alinhamento de causas sociais e ambientais, além de dar uma segurança para os consumidores de que a marca que consomem está de acordo com seus valores. Marcel Fukayama, co-fundador do Sistema B no Brasil, considera a tecnologia um recurso importante para conseguir dar transparência e prestação de contas dentro de cadeias tão complexas quanto a indústria têxtil, o qual o Sistema B faz uso. “O mainstream está começando a perceber as mudanças que precisam ser feitas. Seja por pressão do governo, do consumidor ou do mercado”, afirmou ele.

Confira abaixo um podcast da entrevista com Enrico Cietta: